Claire de Santa Coloma não é portuguesa, mas já se encontra em Portugal há oito anos, conhecendo e representando o panorama artístico português tão bem quanto uma artista nacional. Foi a vencedora da 12.ª edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, tendo a sua obra, Composição Eterna, estado exposta no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia até ao início de Outubro.

A sua próxima exposição individual, intitulada Pausa, inaugura no dia 17 de Novembro, na Galeria 3+1, em Lisboa.

Perante as esculturas da Claire, estas convidam a olhá-las, circundá-las. Convidam a ver uma e outra vez, sob diferentes ângulos e luzes. Revelam-se progressiva e lentamente, fazendo-nos abrandar. São obras prazerosas. Esta espécie de lentidão satisfatória na qual me encontrei imersa com Composição Eterna, criou em mim um franco interesse e curiosidade pela obra da artista, levando-me à proposta desta entrevista.

Sucintamente, aquilo que descreve o teu trabalho.

As minhas esculturas falam de escultura lato sensu.
Faço esculturas em madeira, talhadas à mão. Tenho muito prazer em fazê-las, e é talvez por isso que, como dizes, as minhas obras são prazerosas.  Mas não gosto de descrever o meu trabalho. Faço o que faço e gosto que cada um tenha a sua própria interpretação.

Acerca do teu processo de trabalho: há uma espécie de planeamento prévio na realização das obras? É um processo intuitivo? Ou é um misto de ambos?

Um misto de ambos. Na minha prática, cada escultura é uma experiência em si. As formas que faço adaptam-se ao material.

Falando de material… Vejo um certo contraste entre o material ( maioritariamente madeira) e o tratamento que é dado à superfície. Por vezes, esta superfície parece algo tão subtil como se de uma “pele” se tratasse. Gera uma curiosidade em torno das esculturas, dando vontade de as tocar. Esta relação é intencional?

Sim. É sempre bom sinal querer tocar uma escultura. As esculturas, ao serem um objecto tridimensional, com o qual se pode ter uma experiência espacial, deveriam ser tocadas, mas, finalmente, “não se tocam as obras de arte”.

Ao fazer objectos quase irresistíveis ao toque, estou também a falar da nossa relação com as obras de arte.

As tuas esculturas revelam associações entre formas orgânicas. É a natureza uma inspiração para ti?

Não, na verdade não. Inspiram-me mais os frescos de Giotto, os splitting de Gordon Matta Clark ou algumas obras de Danh Vo. Mas trabalho a partir de um material natural, que tem uma forma orgânica, portanto nas minhas esculturas acaba por existir uma lembrança da sua forma originária.

Como é o teu ritmo de trabalho? Qual a relação com o teu atelier?

Fotografia por Claire, o seu atelier.

Sou uma “artista de atelier”… Vou todos os dias ao meu atelier. É um espaço puramente de trabalho, diria, um espaço de produção e experimentação.

Gosto de trabalhar com luz natural, portanto se tenho muita coisa para fazer, começo a trabalhar cedo. Faço uma peça de cada vez e, enquanto estiver a trabalhar nessa peça, fica tudo espalhado no espaço: ferramentas, pedaços de madeira, desenhos. Quando estiver acabada, arrumo e limpo o atelier para dar espaço a uma nova “peça”. E assim sucessivamente.

Fotografia por Claire. O seu atelier, enquanto preparava Composição Eterna.

Há uma forte relação entre a tua obra e o espaço envolvente, convidando-nos a um espaço de convivência com as esculturas. Participar nas exposições é, portanto, uma experiência insubstituível.  Requer uma presença física.

Absolutamente. Acho a experiência da obra de arte essencial.

Mas o espaço tradicional dos museus e galerias, geralmente branco e asséptico, separa, de certo modo, a arte do mundo. Por vezes afastam o espectador…  Qual a tua opinião (geral) relativamente aos espaços tradicionais dos museus e das galerias? E no entendimento da tua obra?


Quando faço esculturas, tenho a intenção de lhes dar o aspecto “tradicional” de esculturas e quero que sejam entendidas e apreendidas como tal. Portanto, o espaço branco e asséptico expositivo é o ideal para as mostrar. Mas sou consciente que não vivemos nestes espaços de exposição, e no fundo gostaria que a arte fizesse parte do nosso quotidiano. É por isso que quero que as minhas obras falem de uma relação mais “pessoal” com o espectador.

O problema com as obras de arte é que geralmente acabam arrumadas num acervo. No acervo de um museu, de uma colecção, de uma galeria e até de um atelier. São muito poucas as obras que ficam em exposição permanente ou que são expostas frequentemente. Por isso, gosto da ideia de que as minhas esculturas possam viver num contexto mais quotidiano, que convivam com outros objetos, que habitem o espaço de vida de uma família, que sejam tocadas, olhadas durante as diferentes luzes do dia e com diferentes estados de humor.

Para terminar…

Numa passagem rápida pelo teu percurso: nasceste em Buenos Aires, estudaste em Paris e Madrid. Em Portugal, estudaste na Maumaus. Também já participaste em alguns programas e residências. Na tua opinião, quais as ferramentas que um artista deve ter atualmente?

Penso que o mais importante é ter a possibilidade de conversar e dialogar com outros artistas, de confrontar-se com as diferenças dos outros e de ter a abertura para mudar de ponto de vista. Para isso, acho importante viajar e viver experiências diversas das quais estamos acostumados, fazer residências é uma óptima maneira de o fazer. Falar um outro idioma é essencial para comunicar.

Ainda assim, penso que cada artista tem o seu próprio percurso e isso é bom. De certa maneira, cada experiência ou  acontecimento influencia a nossa prática ou a construção do nosso universo.

 

Texto e restantes fotografias por Beatriz Coelho.

com um especial agradecimento à Claire.