A pintura de João Gabriel é uma recente revelação naquele que é o panorama artístico atual. Foi um dos seis finalistas da 12º edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, tendo estado a sua obra exposta no  MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologiaaté Outubro de 2017. Para além de outras exposições onde tem vindo a participar, entre elas Pau Duro Coração Molena Galeria Foco,  as suas pinturas podem ser agora (re)descobertas, no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, até ao dia 11 de Março de 2018, integradas na exposição Género na Arte

João Gabriel. Sem título, 2017. Acrílico s/ tela, 110 x 160 cm.

Antes de mais João, queria dizer-te o seguinte: comecei por formular as questões que de maior interesse considerei, aquelas que mais curiosidade me suscitaram na altura em que vi a exposição no MAAT e depois, quando pesquisei mais acerca do teu trabalho. A dada altura, já tinha algumas coisas escritas, mais ou menos estruturadas, até que encontrei o teu trabalho escrito Os Dias Felizes Ou o exercício de atenção no trabalho artístico. Acabei por lê-lo, o que fez com que, por um lado: algumas questões se tivessem clarificado (toda a ideia da “atenção suspensa”, na prática artística, é realmente interessante de ser pensada e percebida). Por outro lado, fez com que novas dúvidas se tivessem instalado para a realização da entrevista. Ainda assim, e dado que esta entrevista mata a minha curiosidade mas é, essencialmente, para pessoas, seguem-se perguntas que considero ainda pertinentes, mesmo as que já creio (ou não) imaginar a resposta.

Começando exatamente pela “atenção suspensa”. Essa dose de atenção que valorizas e procuras, um tal estado de abertura e disponibilidade a que te submetes perante as informações que se passam no objeto, ou seja, na tela que pintas. Esse “estar à espreita”. Os artistas que se interessam por esta “atenção suspensa”, acabam por ser os mesmos que privilegiam um processo intuitivo de trabalho, em detrimento de um planejamento estritamente rígido e pré-estabelecido daquilo que vão fazer. Acredito que seja o teu caso…

Antes de mais deixa-me dizer que, essa questão da “atenção suspensa” tem, na verdade, uma história curiosa relativamente ao processo de construção do texto que referes. Embora, o capítulo onde falo nisso apareça no início do texto, ele foi elaborado em último lugar. Apenas serviu como uma tentativa de tornar o texto principal, “os dias felizes” (esse sim, escrito de uma forma que mais me agradou e que senti próximo da minha prática), de algo que fosse ao encontro daquilo que nos pediam no mestrado. Por isso, fi-lo um bocado contrariado, mas que compreendi ter tornado a ideia mais clara, para mim, absolutamente essencial.

Neste sentido, creio que o núcleo do texto principal e do meu trabalho é a ideia de que, no decorrer do fazer da pintura, há uma determinada altura em que tenho de abandonar aquilo que esperava acontecer, permitindo seguir a própria vontade da pintura que, na maior parte dos casos, avança para longe da ideia que tinha pré-estabelecida. Depois, o que mais me agradou ao desenvolver esta ideia, foi conseguir encontrá-la, de um modo mais ou menos explícito e dito de várias formas, por artistas que muito admiro. Foram, sobretudo, a entrevista por David Sylvester a Francis Bacon e Esculpir o Tempo, de Tarkovsky, onde encontrei esta aproximação ou familiaridade.

João Gabriel. Sem título, 2017. Acrílico s/ tela, 100 x 90 cm.

Essa disponibilidade a que te propões, acaba então por criar novos caminhos na pintura, afastando-te daquilo que é conhecido como uma repetição de fórmulas. Pois é no “estar à espreita” que se encontra aquilo que, sem essa concentração, sería impossível descobrir. Assim, atentas aos caminhos que te são propostos pela pintura e tomas a decisão de seguir alguns deles. 

Neste sentido, podemos dizer que a pintura é, em primeira ou última instância, o resultado de uma sucessiva tomada de decisões. Concordas?

Eu acho que todo o meu trabalho é um sucessivo acumular de camadas. Sejam elas, num sentido mais prático, as camadas da própria pintura: esse jogo de ir adicionando elementos e omitindo outros, até que não consiga fazer mais nada ou, como referes,  esse acumular de decisões.

As pinturas que faço hoje tiveram como ponto de partida as que fazia há um mês atrás, e assim sucessivamente. E, se vir todo o meu trabalho por ordem cronológica, apercebo-me que as primeiras pinturas que fiz, quando ainda estava na escola, acabaram por tornar-se o fundo das próximas. Isto não quer dizer que as pintei por cima, apenas fui transportando as ideias de umas para as outras. Creio que este é um exemplo prático desse “estar à espreita”. Ou seja,  estou sempre a tentar repetir as coisas que já fiz, na esperança de encontrar, a determinado momento, alguma pista que me leve a novos caminhos. Daí ser necessário essa concentração extrema pois, por vezes, essas pistas escondem-se nos mais pequenos, laterais e fugazes detalhes. Acontece que, se não me aperceber deles no momento exato, posso perdê-los, dado que o momento passa e esses detalhes escapam…

Pinturas em processo, no atelier.

Como encaras os “acidentes”, quando estes ocorrem, no fazer da pintura?

Tenho muita dificuldade em relacionar-me com a palavra acidente – porque na verdade, feita a pintura e olhando para ela, nem que seja segundos depois, já não sei se foi tudo uma sucessão de acidentes que fui optando por manter, ou se tive, de facto, algum controlo.

João Gabriel. Sem título, 2017. Acrílico sobre papel, 65 x 50 cm.

Parte das tuas pinturas são conhecidas por navegarem num território figurativo que utiliza, por exemplo, imagens e cenas de filmes pornográficos gay. Na minha opinião, elas parecem compreender o denominador comum de erotismo:  no sentido de antecipação, desejo ou vontade. Algo que se materializa através das imagens que pintas, mas que pode ser metaforizado ou transportado para outras questões. O que quero dizer é que não vejo as tuas pinturas somente num sentido objetivo. Sinto-as interpretativas. 

Crias e vês as tuas pinturas como algo objetivo ou como uma ferramenta para?

Sinto-as sempre sujeitas a várias interpretações ou, pelo menos, parte do meu esforço é nesse sentido. Estou sempre a tentar criar cenários banais, em que nada ou pouco acontece. Em primeiro lugar, porque isso é uma forma de eu próprio me concentrar em questões relacionadas com a pintura, e não com o seu conteúdo representativo. Depois, porque ao representar esses momentos, espero deixar espaço para alguma especulão por parte de quem está a ver a pintura. A ideia de que a obra só se completa no olhar de quem a vê depois faz, para mim, muito sentido. E isso só é possível acontecer, quando se deixam coisas em aberto.

Sempre me aborreceu profundamente ver obras de arte, sejam pinturas ou não, cuja interpretação se encontra fechada à partida. Haverão coisas boas feitas nesse sentido, mas nunca consegui com elas grande aproximação, precisamente, porque parecem não me oferecer qualquer experiência. É por isto que, quando vou a um museu, evito com todas as minhas forças olhar para os textos de contextualização histórica. Acho que esta aversão foi o motor principal para me afastar de fazer coisas que nunca gostei de ver, fazendo então o que faço.

João Gabriel. Sem título, 2017. Acrílico sobre tela, 100 x 90 cm.

Depois, tocas numa questão muito interessante quando falas em erotismo, já que ele surge no meu trabalho por ser a perfeita ilustração desse espaço em aberto. O erotismo representa, para mim, esse espaço onde cabem todas as fantasias e desejos, precisamente, porque nunca é um fim mas antes uma antecipação de vários finais possíveis.

Obras, artistas ou outras personalidades que tens como referências.

Já referi alguns, mas há tantos outros… O que mais me comove será o Matisse. Sinto sempre, ao ver qualquer trabalho dele, um amor profundo à pintura e à vida. É uma sensação difícil de descrever.

Depois há o Cézanne, Bonnard, Kitaj, Velásquez, Goya, Balthus, Fischl…

Qual a relação que estabeleces com as tuas pinturas? Durante o processo de criação, e após.

Durante o processo é, para mim, uma relação muito misteriosa. Como o faço todos os dias, aparenta não existir qualquer relação, porque já faz parte do meu dia-a-dia. Não é algo extraordinário, é um hábito diário, por isso o ato de pintar passa facilmente despercebido na minha memória, salvo raras exceções em que algo me surpreende. Guardo apenas uma sensação de satisfação. E por isso, o momento em que melhor consigo analisar o que fiz, é quando chego a casa e revisito o meu dia na memória, como alguém que se recorda lentamente de um sonho. É aí, o único momento em que talvez tenha algumas ideias, geralmente sobre o que fazer no dia seguinte, como resolver coisas que ficaram pendentes. Mas não gosto de olhar para as pinturas acabadas. Assim que as faço, escondo-as e só volto a ver quando preciso de pensar numa exposição.

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Qual a relação que tens com o teu atelier?

Em primeiro lugar, tenho de estar no atelier todos os dias, e, mesmo quando, por alguma razão, não tenho tempo para pintar, preciso de estar lá nem que seja por cinco minutos. Não sei ao certo qual é a razão pela qual isto me acontece, mas penso que é para não criar um desprendimento com as pinturas em processo. Já me aconteceu por várias vezes ter de me ausentar, nem que seja por três dias, e já não ter qualquer relação com as pinturas começadas. E por isso não saber como continuá-las. E isto é muito desgastante, tenho a sensação de ter voltado ao início. A concentração que necessito para pintar é algo que só consigo atingir com um ritmo diário. Penso que esta será a característica mais importante da minha relação com o atelier.

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Para além disso, é também o local onde tudo está organizado de acordo com o meu processo de trabalho, e que foi sendo organizado de uma forma progressiva, consoante as próprias exigências do trabalho. Coisas que até posso nem ter pensado de forma consciente, mas que ficaram impressas no espaço. Este aspecto é importante, uma vez que torna tudo mais confortável. Ainda assim, não acho que esta característica seja circunscrita ao meu atelier atual, ou seja, se tivesse de mudar de espaço acho que voltaria a conseguir pintar passado algum tempo. O mais importante é que exista um espaço onde as pinturas em processo possam estar dispostas pelas paredes.

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Por fim, e fazendo novamente referência ao teu trabalho escrito Os Dias Felizes.       O que é que te faz acreditar e combater os dias “menos felizes” no atelier?

Como digo no texto, não há bem uma fórmula eficaz que combata o medo de não voltar a ter entusiasmo pelo que estou a fazer. É algo que, de tempos a tempos acontece, e é uma sensação terrível, sentir que a única coisa que me faz mover foi perdida e a incerteza de a reaver. Ainda assim, a forma que intuo como melhor será ver pintura, mas aí teria que andar sempre a viajar e só o posso fazer por vezes. Portanto, a seguir a isso, resta-me ver coisas às quais tenho rápido acesso: literatura e cinema. Acontece-me regularmente sair derrotado do atelier, para me deixar ser deslumbrado por um filme, ao chegar a casa.

João Gabriel. Sem título, 2017. Acrílico sobre papel, 65 x 50 cm.

 

Entrevista por Beatriz Coelho,

com um especial agradecimento ao João.