Começo por abordar a questão daquilo que é o objeto na prática artística: na generalidade e na tua.  Citando Antony Hudek: “The object is this thing that refuses to go away”. O objeto carrega consigo a característica de identificação pessoal e, consequentemente, de identificação cultural. Na tua prática artística, há uma valorização direta e indireta daquilo que é ser objeto.

Qual a tua opinião e consequente motivação acerca das características e capacidades de um objeto?  

Eu sou, antes de mais, um apaixonado por objectos. O objecto é algo com o qual tu manténs uma relação física, é táctil. Para além da sedução formal que determinado objecto possa exercer em mim, interessa-me sobretudo a capacidade que esse mesmo objecto terá na criação de discurso, ou seja, de que modo, com ou nenhuma intervenção minha, esse objecto poderá trespassar as suas características originais e até funcionais passando a ter uma releitura para quem o vê. O contexto primeiro de cada objecto, seja o lugar onde habitualmente se encontra no quotidiano, seja a carga que transporta por ser novo ou antigo e até a sua função social estão sempre na base da minha escolha, pois a transformação que opero necessita desse significado original para funcionar.

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Plásticos, peles, têxteis, borrachas, tinta, papel… Em vez de optares por uma ferramenta de trabalho, insistes nesta diversidade inesgotável de materiais, tornando o teu corpo de trabalho rico, desafiador e estimulante aos olhos de quem o vê. Interessa-te a variação ​das possibilidades discursivas de diferentes tipos de materiais? Pergunto isto e lembro-me imediatamente de: “He is a Girl Now” (batom sobre papel e letras de madeira).

Sim, interessa-me muito. É uma questão similar à dos objectos. Cada material encerra já em si uma leitura, uma vez que recorro habitualmente a materiais que não vêm das práticas artísticas mais comuns. Gosto de materiais industriais, do quotidiano e das artes decorativas e adoro passear por grandes superfícies de bricolage e hipermercados à procura de possíveis “ferramentas de trabalho”. Depois, o uso desses materiais está sempre relacionado com os contextos e conceitos de cada peça. Tudo está interligado, e o uso de determinado material não ocorre somente por mero fascínio meu sobre o mesmo. Se não existir contexto, não é usado.

Para além do papel do objeto e dos diferentes materiais na tua prática artística, resta-me abordar o elemento que, de igual modo, tão bem representa e completa a tua obra: a palavra. Integrada no teu trabalho, a palavra veste-se de angústia, ironia, dor, sofrimento​Como surge, na tua obra, a palavra?

A palavra é o pilar da minha formação. Desde cedo que a literatura e a poesia, e até um certo cinema europeu que valoriza muito a palavra, estiveram na base da construção do meu universo estético. Isto, para além do meu olhar sobre a obra de alguns artistas como Ed Ruscha, Bruce Nauman ou John Giorno, de quem gosto particularmente, e que construíram um corpo de trabalho muito suportado no uso da palavra.

Mais particularmente, em relação ao exemplo que dás e às peças presentes na exposição “História da Vida Privada”, a maioria das peças com texto derivam de uma situação muito específica… Desde 2015 que eu coloco, com alguma regularidade, pequenas frases ou palavras soltas escritas a grafite sobre papel no meu instagram. Estas frases e palavras são provenientes de diversas fontes: filmes, poemas, letras de músicas, da minha autoria, etc. E sempre pensei que iria fazer algo com essas frases, pois ao retirá-las do seu contexto original, ao isolá-las, elas ganham um estatuto de citação e em simultâneo de sentença e de verdade, mas de verdade no sentido de se tornarem uma espécie de oráculo.

Tocando, agora diretamente, na ​História da Vida Privada, que tão recentemente terminou na Galeria 111.

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Este projeto de exposição, mostra de coleção, encenação de atelier, instalação ou conjunto de obras – História da Vida Privada – evocou memórias, pensamentos, experiências e desejos, concretizando-se numa exposição de caráter autobiográfico, ou então, num espaço de materialização da tua interioridade. Concordas?

Este projecto pretendeu, essencialmente, dar a conhecer um corpo de trabalho que produzo paralelamente às peças mais conhecidas, ou que tenho vindo a expor nos últimos anos, e algumas mais antigas e nunca expostas. Contudo, quis sempre afastar-me da ideia de curiosidade, o que facilmente aconteceria se a exposição se apresentasse ao público como “algo nunca visto”. Por outro lado, não quis que essas peças, realizadas nos intervalos fossem estigmatizadas como um corpo diferente do que habitualmente exponho, o que me levou a juntar algumas peças de exposições anteriores e fragmentos de instalações. Existe, sim, uma génese mais intimista e pessoal nessas peças, que foram feitas de um modo mais imediato e mais impulsivo. Se a exposição resulta como autobiográfica não sei, porque a máscara está sempre lá… E penso que qualquer produção artística é sempre resultado de uma interioridade (ela pode é ser mais ou menos explícita na obra e para o espectador). O que eu acho é que a História da Vida Privada foi uma falsa antológica, ou se quiseres, uma antológica pura, feita de peças que foram escolhidas por total empatia, importância e ligação a momentos específicos da minha vida pessoal, longe de uma escolha institucionalizada, que visa as grandes peças, as de carácter museológico e tidas como marcantes no percurso de um artista. E nesse sentido sim, a exposição é autobiográfica.

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Ainda assim, este foi ainda um projeto que resultou puramente interpretativo. Vejo ​História da Vida Privada como algo que falou, simultaneamente, pelo particular e pelo universal. Algo que é de ti e toca a todos,

Penso que é sempre assim em arte, não é?

Quanto aos métodos expositivos, vimos, ao longo do espaço da Galeria 111, uma instalação que se revelou “desarrumadamente arrumada”. Como abordas a questão deste método expositivo?

Em 2018 já se fez tudo e já se expôs de todas as maneiras. Não acho, apesar de ter sido bastante comentado, que a forma como instalei a exposição seja motivo de qualquer ruptura. Eu quis, sim, distanciar-me da ideia de cabinet d’amateur, o que facilmente aconteceria se não criasse um só objecto. Daí as paredes grafitadas, que funcionaram como um papel de parede que unificou as diversas peças e tornou a exposição numa instalação: com um corpo único, com o seus órgãos e membros.

Para terminar…

Depois desta viagem à História da Vida Privadao que se poderá esperar da tua próxima exposição, a inaugurar dia 13, na Galeria Fernando Santos?  

Na verdade, a próxima exposição é anterior à História da Vida Privada, pois comecei a trabalhar neste projecto em Fevereiro de 2016. Por motivos vários, a exposição não aconteceu nesse ano nem no seguinte, inaugurando agora no dia 13 de Janeiro. É uma exposição maioritariamente de escultura, que reúne peças recentes e inéditas, com excepção de duas, e que se intitula, ironicamente: O Maior Espectáculo do Mundo, em referência ao filme de 1952 de Cecil B. DeMille. É uma exposição um pouco ácida. Muito sobre a ideia de ser artista, de precisar de um “público” e de uma visibilidade exterior para existir. É, também, sobre a ideia de entretenimento e de espetáculo, e sobre a forma como todas estas questões moldam a construção de uma identidade pessoal. Conceitos como falhar e adestrar, a exploração de jogo, submissão, de presas e predadores… Enfim… tudo o que podemos encontrar num contexto social de relações interpessoais, lá estará.

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Fotografias da exposição História da Vida Privada, na Galeria 111.

Entrevista a Pedro Valdez Cardoso, por Beatriz Coelho.