Diogo da Cruz é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. No seu último ano de curso, e através do programa Erasmus, viveu e estudou em Munique, lá permanecendo durante três anos. Em Portugal, frenquentou em 2016, um programa de estudos independentes na Maumaus. Tem vindo a participar em diversas residências artísticas e foi distinguido em vários prémios de reconhecimento nacional e internacional. Dentro e fora do país, conta ainda com uma série de exposições, individuais e coletivas.

// Por Beatriz Coelho

O espaço de trabalho (atelier) do Diogo é, em simultâneo, o seu espaço de habitação. Um lugar recíproco, que preserva o conceito de arte e vida, ou, numa outra hipótese, de arte como vida: indissociáveis. Na verdade, o entendimento do seu trabalho muito passa pelo questionamento da arte e suas possibilidades, enquanto problemática presente e necessária no dia a dia e na vida das pessoas.

The line between art and life should be kept as fluid, and perhaps indistinct, as possible. – Allan Kaprow

Esta casa-atelier expõe aos visitantes um conjunto de trabalhos, em desenvolvimento ou finalizados, imbuídos em história e significado, trabalhos estes que Diogo vai expondo através de uma apresentação naturalmente performativa. É de realçar que esta componente de comunicador nato /performer subjacente ao Diogo, não só permite uma aproximação do espectador à obra como ainda, e, acima de tudo, a integra. Por outras palavras, é uma apresentação e/ ou performance que orienta o sentido da obra, definindo-se como parte integrante da mesma.

A materialização das suas ideias resolve-se através de rigorosos e justificados processos, numa multidisciplinariedade de meios que preservam, sempre e coerentemente, um cuidadoso sentido estético. Deste último, retiram-se influências de artistas como Guy de Cointent e de todo um universo estético que parece remontar à década de 80 – um universo que Diogo assume como referência e que, a par dos seus elaborados processos – resultam em obras de extrema elegância formal, com um frequente cruzamento entre texto, forma e cor, e com um pontual (embora inegável) sentido de humor. Das preocupações e interesses do artista, resta referir uma constante dimensão social e temporal – que torna o seu corpo de trabalho tão pertinente como atual.

 

Arte e Pão

Das obras que tive a oportunidade de ver e ouvir neste espaço, refiro, especialmente, a Necessary Art – um trabalho que surgiu da necessidade do artista estender as ideias de um anterior projeto, The gravity of time, que se referia a preconceitos relacionados com o conceito de tempo e como as sociedades atuais, pelo seu ritmo, têm restringido o usufruto do tempo. Materializado num livro e em palestras performativas, estes assumiam um grau de complexidade e exigiam demasiado – tempo – ao espectador. Assim, na busca de uma resposta mais imediata, eficaz e até mesmo involuntária, o artista resolveu o problema com Necessary Art – uma obra que integrou, na forma de anúncios publicitários, os conteúdos explorados no livro e nas performances – em sacos de pão. Apropriando-se do design de uns sacos de papel de pão que vira numa padaria (em Anadia) criados pelo Senhor A., o Diogo decidiu transformar alguns dos seus conceitos em pequenos anúncios, imprimindo-os também em sacos de pão, e oferecê-los como pequenas lembranças de conhecimento, com pão no interior (ou brezel, dado que o seu projeto foi apresentado em Munique). Uma reflexão fortíssima e de uma eficácia tremenda (humorística, também). Numa sociedade cujo ritmo não lhe permite, entre tudo o resto, despender tempo, contemplar e usufruir da experiência da obra de arte, então Necessary Art impõe-se obrigatoriamente ao espectador, pela sua forma inevitavelmente transportadora.

Seria injusto não referir outras projetos que têm ocupado os interesses e preocupações artísticas do Diogo, como WORDCOIN ou Running out of time (klepsydra), ambos de uma advertência incisiva, na qual o espectador é orientado, com curiosidade, humor e interatividade, a reparar numa série de princípios segundo um diferente prisma. O que tantas vezes nos parece efetivo e atual, revela-se, afinal, como surpreendentemente desajustado.

Desta visita ao atelier do Diogo, vários aspetos serão importantes considerar. Em primeiro lugar, a consciência de construção de um percurso. Um artista que parece cultivar a tomada de iniciativa e a atividade, evitando, de todas as formas, aquilo que se poderá definir como uma espécie de inércia. Depois, a sua capacidade natural de comunicação, ferramenta imprescindível não só no seu trabalho, como (e cada vez mais) naquela que é a dimensão social atual.

Por fim, e com muito agrado, conheci uma obra genuinamente interessante e um espaço que é, simultaneamente, inusitado e certeiro.

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Mais informações:

http://www.diogocruz.net/about

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